Receber um dinheiro extra — seja por restituição do Imposto de Renda, 13º salário, herança, venda de um bem ou participação nos lucros — levanta uma dúvida recorrente: vale mais a pena amortizar um financiamento ou investir o recurso? A decisão financeira ideal depende diretamente do tipo de dívida contraída, das taxas de juros aplicadas ao contrato e dos objetivos de cada consumidor. Esse cenário, que afeta brasileiros com parcelas de imóveis ou veículos ativas, exige cálculos precisos para apontar qual escolha gera maior ganho econômico, segundo o economista, consultor de empresas e conselheiro do Conselho Regional de Economia do Pará e Amapá (Corecon PA/AP), Nélio Bordalo Filho. O especialista explica que a escolha deve se basear na comparação entre o custo efetivo do financiamento e a rentabilidade líquida de aplicações de baixo risco. "Se o contrato imobiliário possui juros reduzidos, como ocorre em alguns financiamentos antigos ou com subsídios, e o investidor consegue obter um retorno superior em aplicações conservadoras, investir pode ser financeiramente mais interessante", esclarece Nélio Bordalo Filho. Por outro lado, para quem prioriza a segurança patrimonial, quitar o saldo devedor assegura a diminuição de juros futuros e garante tranquilidade. Como decidir entre amortizar ou investir em contratos de juros altos? Em financiamentos de veículos, crédito pessoal ou cheque especial, a amortização quase sempre é a decisão mais vantajosa para o bolso. Isso ocorre porque essas modalidades costumam cobrar taxas de juros muito superiores às rentabilidades brutas ou líquidas obtidas em investimentos conservadores. "Cada real utilizado para reduzir a dívida gera uma economia financeira praticamente garantida, equivalente aos juros que deixariam de ser pagos ao banco", afirma Nélio Bordalo Filho. De acordo com o consultor, a antecipação melhora de imediato a capacidade financeira da família, reduz o comprometimento da renda mensal e diminui o risco de inadimplência em caso de imprevistos. Nélio Bordalo Filho, economista, consultor de empresas e conselheiro do Corecon-PA/AP(Reprodução/ Leandro Corrêa) Qual a diferença entre reduzir o valor da parcela ou o prazo do financiamento? O consumidor que opta por amortizar o saldo devedor encontra duas modalidades disponíveis no mercado, cada uma com benefícios específicos. A redução no valor das parcelas proporciona um alívio imediato no orçamento doméstico mensal, o que facilita a administração das despesas diárias. Já a diminuição do prazo mantém o valor atual das prestações, mas encurta o tempo total de duração do contrato da dívida. Do ponto de vista puramente econômico, manter o valor pago mensalmente e reduzir o tempo de cobrança traz o maior ganho financeiro. "Para quem consegue manter o valor das parcelas, a redução do prazo costuma representar a maior economia financeira no longo prazo", destaca o economista, lembrando que essa escolha abate de forma expressiva o montante total de juros cobrados pelo banco. Quem é o perfil de investidor que deve manter a dívida e aplicar recursos? Existe um perfil específico de poupador para o qual compensa manter o financiamento ativo e direcionar a renda extra para o mercado financeiro. Essa estratégia funciona apenas para pessoas disciplinadas, com boa educação financeira, reserva de emergência consolidada e estabilidade de renda mensal. Também é indispensável que o investidor consiga manter aplicações que gerem retorno líquido superior ao custo total do financiamento. Para a maior parte das famílias brasileiras, contudo, a eliminação de pendências com taxas elevadas continua sendo a escolha mais recomendada. "A amortização tende a ser a alternativa mais eficiente, pois proporciona economia certa, reduz o nível de endividamento e fortalece a saúde financeira no médio e longo prazo", conclui o conselheiro do Corecon PA/AP. Simulação de impacto financeiro com R\$ 10 mil de renda extra O resultado prático da escolha varia conforme a taxa de juros do financiamento e o prazo restante do contrato: Amortização (financiamento imobiliário): aplicar R\$ 10 mil em um contrato longo com juros de cerca de 9% ao ano gera uma economia futura estimada entre R\$ 18 mil e R\$ 30 mil devido ao abatimento de juros Aplicação financeira (renda fixa): investir os mesmos R\$ 10 mil em aplicações conservadoras gera um patrimônio estimado entre R\$ 16 mil e R\$ 19 mil após o prazo de cinco anos Aplicações consideradas: investimentos conservadores com rentabilidade líquida entre 11% e 14% ao ano, como Tesouro Selic, CDBs, LCIs ou fundos de renda fixa